Você finalmente decidiu tirar o sonho do papel. Comprou o terreno em um dos belos bairros de Joinville ou decidiu reformar a casa da família. Você senta para a primeira reunião.

A conversa começa e, de repente, parece que mudaram o idioma. É “corte AA”, “planta de situação”, “memorial descritivo”, “RRT”…

Se você se sente perdido nessa “sopa de letrinhas”, calma. Isso é normal. O “obres” (o idioma da obra) pode ser intimidante para quem não é da área.

Neste artigo, vamos traduzir os principais termos técnicos que você encontrará no seu projeto arquitetônico. Nosso objetivo é que você olhe para aquelas folhas gigantes e entenda exatamente o que será construído no solo joinvilense.


A Parte Visual: Entendendo os Desenhos

O projeto arquitetônico é o manual de instruções da sua casa. Sem ele, o construtor não sabe o que fazer. Vamos entender os desenhos principais:

1. Planta Baixa (O mapa do tesouro)

É o desenho mais famoso. Imagine que passamos uma faca gigante na horizontal da casa, a cerca de 1,5m de altura, e removemos o teto. Olhando de cima para baixo, o que vemos é a planta baixa.

  • O que ela mostra: A disposição dos cômodos, onde ficam portas e janelas, a espessura das paredes e as dimensões (largura e comprimento) de cada ambiente.

2. Cortes (Olhando por dentro)

Se a planta baixa é uma fatia horizontal, o corte é uma fatia vertical. Imagine cortar a casa como um bolo, de cima a baixo, e olhar para o miolo.

  • Por que é importante: O corte mostra as alturas. Qual o pé-direito (altura do chão ao teto)? Onde passam as escadas? Como é o caimento do telhado? É essencial para entender os níveis da casa.

3. Fachadas (O cartão de visitas)

São os desenhos das vistas externas da casa. É a “cara” do projeto, mostrando os revestimentos, o estilo das janelas e como a construção se apresenta para a rua ou para o jardim.


A Parte “Invisível”: Documentos Essenciais

Nem só de desenhos vive um projeto. Existem documentos escritos que são vitais para a aprovação na Prefeitura de Joinville e para a qualidade da obra.

4. Memorial Descritivo (A receita do bolo)

Se as plantas são o “o quê”, o memorial é o “como”. É um documento de texto que detalha todos os materiais e processos que serão usados na obra.

  • Exemplo: Na planta está desenhado “piso”. No memorial diz: “Porcelanato marca X, modelo Y, cor Z, assentado com argamassa tipo ACIII”. É a garantia de que o acabamento que você escolheu será o instalado.

5. ART e RRT (A sua segurança legal)

Aqui a coisa fica séria.

  • ART (Anotação de Responsabilidade Técnica): Emitida por engenheiros (CREA).

  • RRT (Registro de Responsabilidade Técnica): Emitida por arquitetos (CAU).

Esses documentos provam que existe um profissional habilitado responsável pelo seu projeto e pela execução da obra. Em Joinville, a prefeitura não aprova nenhum projeto sem eles. É a sua garantia de que, se algo der errado por erro técnico, há quem se responsabilize.

6. Projeto Legal (Para a Prefeitura de Joinville)

É uma versão simplificada do projeto arquitetônico, focada em mostrar que a construção segue as leis municipais (Código de Obras e Lei de Uso e Ocupação do Solo de Joinville). Ele foca em recuos, taxas de ocupação e permeabilidade do solo, não na decoração.

Estrutura e Fundação: O que segura a casa em pé?

Em Joinville, devido ao solo muitas vezes instável (áreas de mangue ou aterro), esta é a parte mais crítica do “dicionário”.

  • Baldrame: É a viga que corre rente ao chão. Ela conecta as fundações e serve de base para as paredes. É fundamental que ela seja ultra impermeabilizada para evitar aquela umidade que sobe pela parede (capilaridade), muito comum na nossa região.

  • Radier: Um tipo de fundação que parece uma grande laje de concreto armado no chão todo. É muito usada em solos menos firmes, pois distribui o peso da casa como se fosse uma raquete de neve, evitando que ela afunde.

  • Estaca: Quando o solo firme está muito fundo (comum em vários bairros de Joinville), precisamos cravar ou escavar estacas para buscar resistência lá embaixo.

  • Pilar x Coluna: Tecnicamente, Pilar é a estrutura vertical que sustenta as vigas e lajes. Coluna geralmente se refere a elementos cilíndricos ou decorativos, mas na obra o termo é usado quase como sinônimo.

8. Alvenaria e Paredes: A “casca” da construção

Você vai ouvir muito sobre “traços” e “camadas” aqui. Entenda a ordem das coisas para não ser enganado na qualidade do acabamento.

  • Verga e Contraverga: São pequenas vigas de concreto colocadas, respectivamente, acima e abaixo das janelas e portas. Para que servem? Elas evitam aquelas rachaduras em 45 graus que aparecem nos cantos das janelas (“bigode”). Se o pedreiro disser que não precisa, desconfie!

  • Chapisco: A primeira camada, bem áspera, jogada direto no tijolo para criar aderência.

  • Emboço: A camada grossa que vem cima do chapisco para regularizar a parede (deixar reta).

  • Reboco: A camada fina e final que deixa a parede lisinha para receber a tinta.

    • Dica de Mestre: Hoje em dia, usa-se muito a Massa Única (ou Paulista), que faz o papel de emboço e reboco juntos, economizando tempo.

9. Telhado e Cobertura: Proteção contra a chuva de Joinville

Aqui chove muito. O projeto de telhado não é só estética, é sobrevivência.

  • Águas do Telhado: Não é a água da chuva, mas sim as “caídas” do telhado. Um telhado de “duas águas” tem dois lados inclinados. Um de “quatro águas” tem quatro.

  • Platibanda: Sabe aquelas casas modernas “quadradas” onde não se vê o telhado? Isso é feito com platibanda. É uma mureta de alvenaria que esconde o telhado e as calhas.

  • Rufo: Chapa metálica dobrada que protege o topo dos muros e a junção entre telhado e parede. Sem rufo bem feito, a infiltração é certa.

  • Beiral: A parte do telhado que avança para fora das paredes. Em Joinville, beirais grandes são ótimos para proteger as paredes (e janelas) da chuva de vento.

10. Acabamentos e Detalhes: Onde a beleza mora

Quando a obra bruta acaba, começa o acabamento. É aqui que os termos ficam mais “chiques” e o orçamento costuma apertar.

  • Pé-Direito: É a altura livre entre o piso e o teto.

    • Padrão: 2,60m a 2,80m.

    • Duplo: Quando a sala tem o teto lá no alto (geralmente o dobro da altura), dando imponência.

  • Esquadrias: Nome técnico para janelas, portas, portões e telas. Podem ser de madeira, alumínio (muito durável na nossa umidade) ou PVC (ótimo isolamento térmico).

  • Rodapé, Rodateto e Roda-meio: Elementos de proteção e decoração. O Rodapé protege a parede de chutes e vassouras. O Rodateto (ou moldura) faz o acabamento entre parede e teto.

  • Sancha e Cortineiro: Detalhes feitos no forro de gesso. A Sanca é uma modelagem que pode ter iluminação embutida. O Cortineiro é o espaço deixado no gesso para esconder o trilho da cortina.

11. Dicionário Urbanístico de Joinville (LOT)

Para aprovar seu projeto na Prefeitura de Joinville, ele precisa respeitar a LOT (Lei de Ordenamento Territorial). Aqui estão os termos que seu arquiteto vai usar:

  • Taxa de Ocupação (TO): A porcentagem do terreno que a “sombra” da sua casa pode cobrir. Se o terreno tem 400m² e a TO é 60%, sua casa só pode ocupar 240m² no térreo.

  • Coeficiente de Aproveitamento (CA): Quantas vezes você pode multiplicar a área do terreno em área construída (somando todos os andares).

  • Recuo Frontal e Lateral: A distância obrigatória que a construção deve ter da calçada e dos vizinhos. Em muitas zonas de Joinville, o recuo frontal padrão é de 5 metros (o famoso “espaço para o jardim”).

  • Gabarito: A altura máxima permitida para a construção naquela rua.

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